terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

MEU PAI

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MEU PAI


Edson Osni Ramos (Cebola)


Ontem, 31 de janeiro, completaram-se 27 anos da morte de meu pai. Na época ele tinha 56 anos, e eu, 26.

Como todo filho, tive a fase do “meu pai é meu ídolo”, depois “meu pai tem muitas falhas” e “meu pai não sabe nada”.

E, então, ele se foi, sem dar tempo da fase “até que meu pai entende de muitas coisas” e, finalmente, a fase que muitos têm a felicidade de viver: “meu pai é uma ótima pessoa”.

Tivemos problemas, muitos problemas. Mas o tempo é um anestésico às vicissitudes da existência. Hoje, já consegui sepultar os pesadelos. Assim, as lembranças foram depuradas e ficaram apenas as boas, os bons momentos.

Estou escrevendo e olhando a foto abaixo, do final dos anos quarenta. Meu pai, que tinha vinte e poucos anos, é o “de bigodinho”, modelo Errol Flynn, como ele dizia, agachado atrás do acordeão (ou acordeom). O primeiro sentado (da esquerda para a direita) é o Cida (Placindino Melo – já falecido). O músico é Aldo (Adinho) Maciel, depois, Walter Gerlach, meu ex-professor, e o segundo da direita para a esquerda é Genésio Ramos, o meu Tio Néso, também já falecido. Os outros dois não consegui identificar.


Foto: acervo da família - autor desconhecido


Todos saudáveis, posando sobre uma ponte, que não sei onde fica, diante de dois caminhões, que deveriam ser seus meios de transporte. Provavelmente estavam indo ou voltando de algum jogo de futebol. Cheguei a pegar a época em que o pessoal da Ponta de Baixo, São José, SC, se amontoava na carroceria de um caminhão, todos de pé, balançando durante o trajeto - para desespero de minha mãe, que achava que alguém poderia cair, deslocando-se a algum lugar próximo para uma “peleja” dominical.

Que saudade!!!

Eram outros tempos, claro. Sem ser saudosista, mas era um tempo em que pouco tínhamos em termos materiais, mas tínhamos nossa cidade para nós.

Hoje meu pai teria muitos problemas para se adaptar à nossa região.

A sua “Olaria de Louças de Barro” seria inviável, dentro de sua concepção em criar peças utilitárias – panelas, pratos, canecas, alguidares, potes e moringas. Teria de se adaptar à criação de peças decorativas. Teria dificuldade em sair às ruas, mesmo na Ponta de Baixo, e quase não encontrar conhecidos.

Não teria o Miramar e a Pastelaria do Japonês, na Felipe Schmidt, onde ia quando se deslocava até Florianópolis.

Não encontraria os velhos amigos do “mercado” (Mercado Público de Florianópolis), onde a família tinha um box para comercializar louças de barro.

Ficaria horrorizado por não existirem as brincadeiras de seu tempo de criança. Que também foram meus tempos, onde jogávamos pião, bolinha de vidro (na boca ou no crown) e fazíamos carrinhos com latas velhas e cavalinhos de pau com cabo de vassoura. E pescávamos siris e camarões na Ponta de Baixo, que eram cozidos com água do mar. Sem poluição, sem insolação, sem fobias.

Fico imaginando a comédia que seria meu pai diante de um computador!

Como tinha facilidade em fazer cálculos aritméticos “de cabeça”, detestava fazer contas “a lápis”. Jamais usou calculadora, embora tivesse de fazer as contas de todos que trabalham com ele, que recebiam seus vencimentos semanalmente (por produção, não por salário fixo). Lembro de um dos atravessadores, que também tinha box no Mercado Público de Florianópolis e comprava suas louças (no atacado), sempre trazendo as contas já feitas, impressas através de uma calculadora mecânica. Ele conferia tudo “de cabeça”, para ver se o resultado estava correto. E não admita que achássemos graça daquilo.

Na Ponta de Baixo não havia assaltos ou roubos. No máximo, roubavam uma galinha gorda da casa de algum vizinho, que também era convidado para saborear o ensopado que resultava.

De drogas, muita birita – cachaça ou cerveja. E cigarro – meu pai fumava “belmont”.

Aliás, meu pai quase nem tomava cerveja, mas cachaça ...

Ir ao centro de Florianópolis era uma viagem. Aliás, lá na Ponta de Baixo não se usava a expressão “ir ao centro”. Quando se ia ao “centro” de São José, dizíamos ir “a Praça”. Quando se ia a Florianópolis, dizia-se ir “a Cidade”.

A primeira vez que ouvi a expressão “centro”, referindo-se ao centro de Florianópolis, foi quando passei a estudar no Colégio Catarinense, na 1ª série do curso ginasial (atual 6º ano do ensino fundamental).

Tenho saudade de sua voz, de ouvi-lo contar suas histórias. Daqui e de outros lugares.

Algumas boas e engraçadas. Outras tristes.

Outra faceta de meu pai é que foi árbitro de futebol. Certa vez, foi apitar um jogo em Tubarão, lá pelos anos cinqüenta. Para deslocar-se, pegou carona com um conhecido, o Dr. Varela (creio que era juiz), de avião (um teco-teco que decolava do antigo aero-clube de São José, localizado onde hoje é o bairro Kobrasol). Quando retornaram, para alívio de minha mãe, não dava para saber qual dos três tinha ingerido mais “gasolina” durante a viagem: o pai, o Dr. Varela ou o próprio teco-teco.

Tempos atrás fiquei muito feliz em saber que o amigo Gilberto Machado, também lá da nossa Ponta de Baixo, está escrevendo um livro, contando a história das olarias e dos oleiros. Nossa cultura tem de ser preservada e o Gilberto, que quando muito jovem trabalhou de oleiro com meu pai, é o mais capaz para descrever essa parte de nossa tradição, por ter sido agente que vivenciou o período.

Para matar a saudade de quem o conheceu, algumas fotos do meu pai, Osni Albino Ramos, oleiro, grande jogador de dominó e árbitro de futebol. Que um dia não queria apitar um jogo do Ipiranga, no antigo campo que havia em frente à praça de São José, porque estava chovendo e ele estava gripado. De tanto insistirem, concordou em apitar, mas tinha de ser com a roupa que estava. Apenas “arregaçou” a calça e descalço, munido de um guarda chuva, pegou o apito e fez a bola rolar. E se algum atleta risse do fato seria sumariamente expulso.



Foto: acervo da família - autor desconhecido
Time de futebol da Ponta de Baixo - São José-SC: meu pai é o segundo em pé, da esquerda para a direita. Ao seu lado: Vicente, Dico (de barba), Bixa, Zé, Maurício, Coca e Renato.
Agachados: Tinho, Ilson do Seu Duca, Bento, Alécio, Maurinho e Rui. Não identificamos o primeiro de pé, à esquerda e o último agachado, à direita.


Foto: acervo da família - autor desconhecido
Na Olaria, da esquerda para a direita: "seu" Zé, Elói, Quico, um que não reconheci, meu pai e sua égua "Ostra". Ele era a única pessoa capaz de botar esse nome em uma égua.


Foto: acervo Gilberto Machado - autor desconhecido
Festa do Folclore: Porto Alegre, 1969. Expondo sua arte, da direita para esquerda, meu pai, "seu" Baja, Cida e "seu" Ninho.

Foto: acervo Gilberto Machado - autor desconhecido
Festa na Ponta de Baixo, anos 40: meu pai é o primeiro da direita para a esquerda. No centro, Tio Néso. Ainda reconheço, a esquerda, "seu" Ninho e atrás, a esquerda, do Tio Néso, "seu" Constâncio Maciel.
Cerveja resfriada no poço da água e churrasco assado em pedaço de bambú eram suficientes para uma festa.

Quem serão os outros?

Foto: acervo da família - autor desconhecido
Jogo de "casados x solteiros": São Jose - 1959 (pena que a foto está ruim).
Da esquerda para a direita, de pé: Neném, Tavico, (?), Cleto Leite, Dinarte Matos, Aldo Maciel, (?) e Jaime Destri.
Agachados: (?), (?), (?), Ninho, (?), Constâncio Maciel e o árbitro da partida, Osni Albino Ramos, meu pai. A criança, barrigudinha, cabeçuda e sem sapatos (ah se a mãe estivesse presente!) é "este que vos escreve".



Foto: E. Ramos - 2008.
"Mestre oleiro" e escritor, Gilberto Machado mostra sua arte na roda (torno movido pelos pés do oleiro). Olhando atentamente: minha mãe Luci Ramos, meus filhos Bena e Guiba e Tia Adelaide.


Foto: E. Ramos - 2008
Na roda (torno), Guilherme S. Ramos, professor de matemática.


Foto: E. Ramos - 2008
No torno elétrico (agora é mais fácil), Beatriz S. Ramos, sob o olhar atendo da avó.


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7 comentários:

PAULOCOELHOFLN disse...

Olá Cebola,
Não é de hoje que sou fã dos teus textos, e quando você nos presenteia com uma maravilha dessas realmente não tem preço.
Como é do teu conhecimento a pouco tempo perdi uma jóia muito rara que é e sempre será a minha mãe.
Mas como falástes, o tempo vai depurando as lembranças e o que nos resta são somente as boas aquelas que nós sempre acreditamos e lembramos como as mais belas coisas que podem ter acontecido para nós.
Um abraço
Paulo Coelho

Edson Osni Ramos (Cebola) disse...

O comentário abaixo, recebi do amigo Gilberto João Machado, filho do "seu" Ninho (João Machado), amigo e compadre de meu pai, que aparece em várias fotos. Gilberto é funcionário público aposentado, escritor e oleiro, e foi citado no texto. Com sua autorização, e para minha alegria, estou publicando seu comentário, que recebi por e-mail.

"Que maravilha. Que bela homenagem. Voce é a mais pura expressão da gratidão para com o pai. Àquele que lhe proporcionou a vida. Rendo-lhe as minhas homenagens por rememorar e rebobinar a máquina do tempo de nossa história.
O meu grande amigo Osni. Gosto sempre de dizer para todos que o lembram. Vivi, convivi, aprendi a jogar dominó com ele, fomos parceiros, aliás, quase imbatíveis, apitei futebol varzeano inspirado nele, fizemos louças de barro na mesma olaria, trabalhamos madrugadas e serões. A sua habilidade com os cálculos aritméticos me poupavam de fazer contas de quanto ganhava por semana. Ele guardava no seu HD(memória) e refazia como se no word se refaz um texto e mantem-se arquivado, esperando um clique.
Grande Osni! Ele sempre se orgulhou de ti, sabia de sua magnitude.
Obrigado por fazeres referência à esse mané, fico muito agradecido.

Gilberto"

Prof Dudu disse...

É incrível!!!
Quando falamos de nossos pais, as histórias de vida podem ser completamente diferentes, mas na emoção de ler, pensamos como se fizéssemos parte da história.

Grande abraço de seu AMIGO


Eduardo Breviglieri (Dudu)

Gera disse...

Olá grande amigo Cebola!
Sempre leio as coisas que recebo de você, pois, as acho muito interessantes... mas essa em especial me fez recordar muito os bons(poucos) momentos que pude passar com meu pai, muita saudade.
Parabéns pela homenagem e também por compartilhá-la.
Grande abraço, Geraldo.

Paulo disse...

Edson, quem honra a seu mestre, honra a si próprio. Um dia a gente se encontra para brindar a memória de nossos pais, nossos eternos mestres. Forte abraço! do amigo Paulinho

Jorge Paulino disse...

Oi Cebola! Parabéns pelo texto!
Passei a te admirar mais vendo
a forma carinhosa com q retratas a
memória do teu pai.
Grande abraço!
Jorge Paulino.

TICs no ensino de adm disse...

Olá Edson. Há quanto tempo. Fui sua aluna na década de 1980 no catarinense. Moro atualmente em Blumenau e o pessoal daqui tem um grupo no facebook muito legal somente com fotos antigas da cidade. As pessoas postam as votos e vamos descobrindo quem são, aonde estão e observamos a mudança da cidade. Topas fazer parte do grupo?